Até recentemente, o principal executivo de finanças, ou CFO (chief financial officer), era visto nas empresas como uma espécie de âncora, um profissional responsável pela segurança da embarcação, com olhos fixos na planilha de custos e poderes para vetar projetos e investimentos que julgasse arriscados. Toda vez que a companhia queria traçar um novo percurso, lá vinha o CFO com sua cautela habitual dizendo que não seria possível, que ia faltar dinheiro, que o melhor mesmo era cortar despesas para garantir bons resultados no final do ano. Se você se lembrou de alguém em sua empresa, avise a essa pessoa que esse é um bom momento para ela mudar de atitude. Cada vez mais, os CFOs bem-sucedidos têm sido aqueles que, além das tarefas habituais, participam ativamente da elaboração das estratégias. Trata-se de um tipo de executivo com perfil mais realizador, um timoneiro que não só aponta o caminho mas segura o leme e mostra como a empresa pode chegar ao destino desejado. São executivos como José Filippo, vice-presidente de finanças da companhia de energia CPFL, que, há quatro anos, participa de todos os movimentos decisivos da companhia. Recentemente, foi convidado por Wilson Ferreira Jr., presidente da CPFL, para uma viagem a Nova York, onde seria finalizada a compra da subsidiária brasileira da empresa CMS Energy, um negócio de 211 milhões de dólares. A presença de Filippo não era apenas o reconhecimento de seu trabalho na operação, que exigiu dois meses de dedicação. Sua presença ali era uma espécie de seguro contra problemas de última hora. “Hoje, dedico mais da metade do meu tempo a projetos que façam a empresa crescer”, diz Filippo.
Como conseqüência desse perfil mais completo, em que tornar projetos possíveis é mais importante do que apenas dizer não, Filippo — e profissionais com o mesmo cargo — está ganhando cada vez mais. De acordo com a pesquisa Hay Group/EXAME, a remuneração total do CFO entre os anos de 2006 e 2008 cresceu 65% — a maior alta entre os quatro principais cargos pesquisados, incluído aí o de presidente (veja quadro). Atualmente, os executivos-chefes de finanças de grandes empresas instaladas no Brasil ganham em média 1,2 milhão de reais por ano, cerca de 50% mais que alguns de seus pares no alto escalão da companhia. Evidentemente, o aumento de rendimentos vem exigindo uma contrapartida desses profissionais. Além de possuir um conhecimento profundo em finanças e contabilidade, o CFO de hoje tem de monitorar as relações com os investidores, demonstrar conhecimento sobre a operação e, entre outras coisas, aconselhar o presidente, ou CEO (chief executive officer), em suas decisões. “O gestor financeiro é considerado, hoje, um diamante. Para reter um profissional de primeiro time, a remuneração deve ser bastante atrativa”, diz Olavo Fagundes, presidente do comitê de finanças da Câmara Americana de Comércio (Amcham).
A mudança de patamar do CFO no Brasil é influenciada também pelo bom momento econômico do país. Com a economia em expansão, as empresas aumentaram investimentos, passaram a fazer aquisições e a abrir o capital. Em todas essas atividades, o CFO tem um papel crucial. “Hoje somos cobrados pela boa gestão de nossa área e também pelo desempenho de toda a empresa”, diz Carlos Fadigas, vice-presidente financeiro da petroquímica Braskem. O trabalho de Fadigas aumentou — mas a remuneração também. Nos últimos três anos, seus vencimentos cresceram cerca de 60%. Além disso, há uma influência do que vem acontecendo com essa posição nos Estados Unidos. Por lá, a Lei Sarbanes-Oxley, conhecida pelo apelido de “Sox”, deu um status diferente a essa função. Essa lei, aprovada em 2002, obriga as empresas com capital aberto nas bolsas americanas e suas filiais espalhadas pelo mundo a seguir regras rígidas em relação aos controles internos e aumentar a transparência na governança corporativa. Criada a reboque de uma sucessão de escândalos corporativos, como o da Enron (do setor de energia) e o da WorldCom (de telecomunicações), a Sox pretende garantir a veracidade das informações financeiras, prevendo a responsabilidade civil dos principais dirigentes da companhia, especialmente o CFO. Com isso, o executivo que ocupa essa posição passou a ter uma visão mais completa da empresa, pela necessidade de explicar às autoridades os passos da companhia, e a ganhar mais por isso.
Fonte: Portal Exame
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