Taxa Selic sofreu corte de um ponto percentual e caiu para 9,25%.
Fundos de renda fixa podem registrar 'fuga' e tendem a render menos.
A queda da taxa básica de juros (Selic) afeta os investimentos de maneira diferente: quem aplica na poupança ou em bolsa de valores não sente o efeito, uma vez que a correção da caderneta é fixa (0,5% ao mês + TR) e a valorização das ações depende de outros fatores, como o desempenho de cada empresa e as perspectivas do mercado para a economia.
Já os fundos de renda fixa, indexados pela Selic, passarão a render menos com a queda da taxa básica.
Economistas consultados pelo G1 explicam qual deve ser o efeito da redução da Selic – que recuou para 9,25% ao ano, menor patamar da história, na quarta-feira (10) – nas diferentes opções de investimento do mercado brasileiro.
Veja os principais exemplos, com gráficos que mostram o comportamento dos rendimentos entre janeiro e abril deste ano:
A tendência é que a poupança continue a atrair mais recursos, incluindo investidores que abandonarão fundos de renda fixa pela caderneta. Isso porque a queda da taxa Selic não afeta o investimento.
A poupança tem valorização garantida: 0,5% ao mês, acrescida da Taxa Referencial (TR). Para Francisco Pessoa Faria, economista da LCA, a poupança “é cada vez mais vantajosa para o pequeno poupador”.
O economista da LCA alerta, entretanto, que a tendência é que as regras da poupança sejam novamente alteradas, para garantir que apenas o pequeno poupador continue na aplicação (recentemente, o governo propôs restrições para valores acima de R$ 50 mil).
O economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, diz que a poupança foi criada para proteger o dinheiro do pequeno poupador em época de inflação. “(A caderneta) não se adaptou à nova realidade. (O governo vai) ter que mexer na sistemática, na forma de remunerar a poupança, não basta só limitar com impostos”, ressaltou.
Segundo economistas, os fundos de renda fixa, que estão ligados à taxa Selic, podem ficar menos atraentes e perder aplicadores conservadores para a poupança e investidores de perfil mais arrojado para opções que incluam algum percentual de renda variável.
Para o professor de finanças pessoais Marcos Crivelaro, é importante que os bancos comecem a oferecer taxas de administração mais baixas para “segurar” investidores nesta aplicação. Agostini, da Austin Rating, diz que a falta de competitividade no mercado financeiro brasileiro permitiu que os bancos cobrassem taxas "salgadas".
Agostini lembra que, além da taxa de administração, o investidor em fundos de renda fixa também tem que pagar Imposto de Renda sobre os rendimentos, além de enfrentar prazos mínimos para aplicação. À medida que o rendimento dessa aplicação se aproxima do da poupança, o economista diz que a caderneta, que tem um perfil mais descomplicado, torna-se mais atraente.
Fundos multimercados com renda variável
Para o professor Marcos Crivelaro, com a tendência de queda de juros, o investidor pode ter de assumir uma postura de mais risco caso tenha interesse em ter ganhos maiores.
Para ele, a vantagem desse tipo de investimento é que o investidor pode ir ao banco e "dosar" seu apetite por risco, determinando qual percentual de seu capital ele quer investir em ações e em que setores, como commodities, energia ou construção civil, por exemplo.
"(A busca por fundos multimercados) ocorreu nas economias onde o mercado de capitais é mais desenvolvido e o investidor precisa se aventurar em opções mais 'exóticas' em busca de retornos", ressalta o economista da Austin Rating, Alex Agostini.
Entretanto, ele lembra que o risco associados a essas operações é mais alto, especialmente se o fundo em questão for agressivo. Por isso, é necessário que, antes de investir por influência de um gerente de banco, o cliente meça bem o percentual de exposição à renda variável e as condições do fundo.
Agostini lembra que alguns fundos informam apenas que são compostos por "15% de papéis de renda variável de primeira linha". Segundo ele, é preciso, nesses casos, que o investidor busque saber o que exatamente esse tipo de chamariz significa, pedindo a lista das empresas que compõem a opção de investimento.
Ibovespa ou fundos indexados ao índice
Francisco Faria, da LCA, sugere a opção pelo fundo indexado ao Ibovespa para o investidor que possa “esquecer” do dinheiro investido.
“O dinheiro para esse fundo é o que você tira quando quer, não quando precisa. É o dinheiro que você pode retirar só quando acha que é a hora”, diz.
Faria diz que, nessa opção de investimento, uma emergência pode forçar o cliente a retirar o dinheiro em um momento ruim para a bolsa, enfrentando perdas.
Para Alex Agostini, a renda variável exige que o poupador tenha objetivos definidos, tanto para ganhos quanto para eventuais perdas. O economista lembra que, para investir em bolsa de valores, é preciso que o investidor tenha controle para não fazer maus negócios.
Agostini diz que a aposta em um determinado setor exige que o investidor estude bem a situação financeira das empresas e o desempenho do segmento (veja ao lado, o exemplo do comportamento de um fundo que reúne ações de empresas de energia).
De acordo com Crivelaro, esses fundos são uma forma que o investidor tem de comprar ações por "pacotinhos", procurando bem para achar um "terreno mais forte".
"Você vê cada vez mais opções de compras por setores dentro da Bovespa. Você tem a vantagem de comprar o setorial, que oscila menos do que uma única empresa", ressalta o professor.
Faria, da consultoria LCA, diz que esse tipo de fundo é beneficiado com o aumento do investimento produtivo no Brasil.
“Assim como o Ibovespa, (os fundos setoriais acabam) se beneficiando à medida que uma redução da taxa de juros real dinamiza e ajuda investimento produtivo. O que vai diferenciar é o risco, a liquidez (do segmento escolhido).”
O economista ressalta, porém, que qualquer investimento em bolsa de valores é indicado para reservas para as quais não haja um destino específico.
O economista da LCA diz que o dólar, com a redução nos juros, passa a se tornar menos atraente, pois a tendência é de desvalorização da moeda.
Já Crivelaro lembra que o mercado de câmbio não é exatamente livre, pois tem é influenciado, por exemplo, pelo Banco Central. Toda vez que a moeda tem uma alta excessiva, o BC põe dólares das reservas do mercado; quando cai, a autoridade monetária compra a moeda, para reduzir a oferta.
Segundo Agostini, da Austin Rating, o câmbio é interessante para quem tem compromisso programado de médio prazo.



